O peixe dificilmente tem a consciência da água que o cerca...

Ao longo da história, os processos políticos e sociais não se desenrolam em vácuo: são impulsionados por estímulos que atravessam — e transformam — todos os seus participantes.
Analisar a conjuntura atual torna-se, assim, uma tarefa complexa, sobretudo quando observamos como o fascismo opera: não apenas domina, mas seduz. Ele convence suas futuras vítimas a abraçarem sua causa — inclusive a lutarem por ela. Essa contradição nos confunde, pois, enquanto o processo se desenrola em tempo real, somos impactados emocional e materialmente. Estamos com medo. Nos protegemos. E, nesse estado de vulnerabilidade, tendemos a reagir com explicações apressadas, ressentidas e defensivas — incapazes de capturar a lógica estrutural do que se passa.
Contudo, se reconhecermos nossa própria previsibilidade — e a recorrência histórica de certos padrões —, basta olhar para outros momentos de ascensão da extrema direita ou do fascismo para identificar, com clareza, os mecanismos centrais de sua atuação. Vemos como o desespero, alimentado pelas crises estruturais do capitalismo, funciona como fermento: dá corpo à beligerância, ao ultranacionalismo, à nostalgia por um “passado glorioso” que jamais existiu — mas que é apresentado como promessa redentora. Esse imaginário, cuidadosamente construído, não surge por acaso: serve diretamente à agenda fascista.
Os líderes, por sua vez, não inovam: reciclam símbolos. Seus discursos, gestos e mitos são variações contextuais de um mesmo repertório histórico — ecoando, ponto a ponto, as estratégias clássicas do fascismo: inimigo interno, crise moral, ordem autoritária, purificação nacional, masculinização do estado.
Por isso, mais do que tentar entender quem apoia o fascismo — fascistas declarados ou não —, devemos nos perguntar:
Como chegamos aqui?
Em que momento a população se sentiu tão abandonada, tão desamparada, que passou a ver na violência, na exclusão e na autoridade cega uma resposta aceitável — até desejável?
A questão não é a irracionalidade das massas.
É a racionalidade do desespero em um mundo que falhou em oferecer alternativas dignas.

