A sociedade da performance e nossa contribuição

O capitalismo não influencia o mundo apenas no âmbito econômico. Há várias frentes nas quais percebemos a influência desta forma de organização social, sob cuja égide de controle vivemos, vamos ver essas sentenças curtas :
- A melhor forma de viajar
- A melhor forma de aprender
- A melhor forma de viver
- A pessoa mais bonita
- A pessoa mais sexy
- O melhor filme
- O melhor argumento
- A melhor forma de governo... etc.
Todos esses exemplos demonstram uma necessidade quase compulsiva de classificação; indo além, revelam a criação de um mundo dividido entre vencedores e perdedores.
Vamos pegar um caso bem comum nos dias de hoje:
Os debates, Podemos verificar que esta estrutura narrativa foi criada e moldada para a exposição de ideias dissonantes, para que se encontrassem pontos cegos ou não observados mutuamente. Hoje, porém, na sociedade da performance — onde todos têm que performar a vitória —, o debate vira: "Fulano massacrou Beltrano", "Fulano venceu o debate". Um elemento de exposição retórica de caminhos transforma-se em mais uma arena de disputa e, principalmente, de humilhação da figura do derrotado.
A "melhor forma" de A ou B sempre segue o conceito de parâmetro universal: não existe o "de que eu mais gosto", existe o melhor, o mais incrível, o mais bonito, etc.
Esta escravidão mental — além de ser absorvida por cada um de nós em um meio que preconiza a exaltação dos "melhores" — é retroalimentada por nós mesmos quando:
- Ao ler um livro de que gostamos, não dizemos "eu gostei deste livro", mas "este livro é incrível";
- Ao encontrar um filme que nos emociona e toca fundo, não dizemos "este filme mexeu comigo", mas "este filme é incrível".
Ainda que a intenção seja mostrar o quanto tais elementos mexeram conosco — usando a hipérbole para demonstrar isso —, ao usarmos falas que encerram componentes menos pessoais e mais abstratos ou gerais, criamos um problema. Ao tornar o pessoal um elemento geral, além de quebrar nosso modelo de classificação, nós nos expomos a ser criticados junto com o objeto de nossa classificação.
Afinal, se esse livro não só mexeu comigo, mas "é incrível", o que ocorre quando alguém o acha ruim ou medíocre?
É importante que essa percepção aconteça, pois, na nossa bolha de classificação, criamos paredes e barreiras. Em vez do simples convite ao contraditório, construímos, de fato, uma prisão pessoal. E diante dessa prisão, quem concorda com a nossa visão é convidado a entrar na nossa bolha, e quem discorda é simplesmente posto para fora dela.
Este sistema cria um enrijecimento da experiência que pode torná-la rígida demais para o flexível que é o viver em sociedade !
Esses pontos de contato entre nós e o meio funcionam perfeitamente para estabelecer uma ilusão de normalidade e padronização — da beleza, da saúde e da vida em geral. Um dos grandes riscos deste tipo de comportamento, eh que alem de simplesmente refletir a influencia ou causar a influencia em nosso meio, pode ser usado intencionalmente; Quem usa isso muito bem é o famigerado Soft Power, que recorre à propaganda objetiva e subjetiva para alimentar esses "olimpos terrestres" e seus deuses, criando na mente coletiva de quem consome a ideia de que o melhor meio de viver é aquele ditado pelo dono da visão que nos é entregue. A beleza é o que o dono da narrativa decide, e por aí vai.
Além de gerar uma extrema superficialidade de objetivos, essa lógica causa uma sensação de despertencimento, na qual cada um de nós opera como uma cópia malfeita dos ideais entregues pelos donos da propaganda.
O resgate da nossa autonomia passa por muita reflexão e diálogo. Mas como fazê-lo se tudo isso está tão intrinsecamente ligado à formação de cada um de nós? Como fazê-lo se nem sequer conseguimos encontrar "a melhor forma de se libertar"?
Como evitar o comportamento messiânico e lidar com nossas subjetividades de forma leve, porém criticamente constante? Como olhar para o mundo sem as lentes do direcionamento cultural no qual passamos a vida imersos?
Mais do que criticar a realidade alheia, tento propor um convite à autorreflexão. Talvez isso possa se tornar uma força realmente transformadora... capaz de fazer uma separação importante entre o eu e o meu meio, de forma que as divergências possam ficar tao próximas e tao distantes a ponto de alimentar minha reflexão e não me afetar enquanto parte do meio em questão.
Isso vale também e muito para as nossas ideias também !


