Viés de Confirmação: A Epidemia do Século XXI

O viés de confirmação virou a grande epidemia da nossa época. Não porque a geração atual seja "menos inteligente", mas porque as redes sociais deram visibilidade a um mecanismo psicológico que sempre existiu, mas cujo impacto coletivo era camuflado.
Mas há algo pior que o viés involuntário: a falácia intencional. Mais especificamente, a Falácia do Espantalho.
Veja a fala recente do Luciano Huck: ele sugeriu que o Bolsa Família carece de estímulos para as pessoas saírem do "assistencialismo", insinuando que os beneficiários se acomodam para manter o benefício. É a velha mentira repetida até virar verdade, usada como cortina de fumaça ideológica. Mas o perigo real vem logo em seguida, quando ele busca um verniz intelectual para validar o preconceito:
Ele cita que, segundo a OCDE, uma família brasileira na base da pirâmide demoraria 9 gerações para chegar à classe média.
Essa sofisticação aparente é uma armadilha retórica. Ele usa um dado real de desigualdade estrutural para fazer as pessoas discutirem se o Bolsa Família funciona ou não, invertendo causa e efeito. O Bolsa Família não é a causa da miséria; é a consequência dela.
O debate real deveria retirar esse verniz. O correto seria usar essa imensa audiência para mostrar o Brasil pré-Bolsa Família e escancarar que a baixa mobilidade social não é uma falha do capitalismo: ela é o objetivo. É a engrenagem que privilegia a burguesia enquanto vende a narrativa de que os bilionários são "heróis" incompreendidos. O capitalismo precisa agudizar a diferença para justificar a hierarquia.
Se programas sociais existem, é pela incompetência do capitalismo em partilhar as conquistas humanas. A modernidade virou produto. Até a Renda Básica Universal é uma ideia de liberais, porque eles sabem que a meritocracia não se sustenta na realidade e o sistema precisa de um amortecedor para não implodir.
Se as famílias não saem do programa, a culpa não é do Bolsa Família — é da natureza canibalizante do capital.
Quer um exemplo atual desse mesmo modus operandi? Olhe para as Inteligências Artificiais (LLMs).
O debate público foca se a IA vai tirar empregos ou emburrecer a população. Mas ninguém discute o roubo original. Passamos décadas alimentando a internet com dados, artes, textos e códigos. As LLMs não foram treinadas com a genialidade de 2.000 burgueses no topo do mundo; elas foram treinadas com a inteligência coletiva da classe trabalhadora.
O capitalismo atual atingiu um nível de audácia sem precedentes: as empresas pegaram toda a nossa bagagem histórica e cultural, privatizaram em uma imensa enciclopédia e agora cobram de nós, os criadores do conhecimento, para termos acesso a ela.
É o maior modelo de atravessador parasita da história da humanidade. E o pior? Está sendo celebrado como o ápice do triunfo burguês, quando na verdade, é tudo absolutamente nosso. E foi roubado.


