A Estrutura do Abismo

Eu me pergunto:
Que crime pode ser pior do que condenar a humanidade a servir?
Que crime pode ser pior do que obrigar pais e tutores a verem suas crianças com fome?
Que crime pode ser pior do que corromper a alma de alguém bondoso, que se vê forçado a roubar para alimentar quem ama?
Que crime pode ser pior do que ver uma pessoa definhando e não poder fazer nada?
Que crime pode ser pior do que assistir a grande parte da humanidade morrer de fome, sede e doenças evitáveis, enquanto se gastam bilhões em guerras sem sentido?
Que crime pode ser pior do que assistir a isso tudo enquanto bilionários brincam de ir ao espaço?
Que crime pode ser pior do que ser a engrenagem responsável por criar a grande maioria dos outros crimes?
Diante do silêncio ensurdecedor dessas respostas, o sistema capitalista eleva o seu lema: O homem é o lobo do homem. O indivíduo é culpado por não ter. O indivíduo é culpado por não poder. O indivíduo é culpado por não conseguir.
Então, criam-se conceitos torpes e simplórios para desviar o foco — como a corrupção e o terrorismo. Pronto, eis aí o bode expiatório. O culpado perfeito para justificar a falta de ação e permitir que finjam tentar resolver o problema.
A grande pergunta permanece: por que tantos precisam morrer — e esvaziar suas próprias existências — para o privilégio de tão poucos?
A resposta atual é o próprio capitalismo. Ele impõe uma concorrência vazia de sentido, sustentada pelo mito messiânico do salvador e alimentada pelo nosso viés de confirmação. É um sistema desenhado para calar o nosso medo. Para cada uma dessas perguntas sem resposta, nós nos afundamos mais e mais no nada, na negação do nosso próprio existir, aceitando o destino de sermos apenas tijolos para que alguns poucos possam morar. E morar muito bem.


