O Mundo Mudou com as Redes Sociais?

Talvez o mundo tenha mudado junto com elas. Vou passear por mais um assunto que acredito estar na luta conceitual entre correlação e causalidade.
"Nossa, as pessoas gostam de expor suas falsas vidas por causa do Instagram." "Nossa, as pessoas exibem suas alegrias fabricadas por causa dos likes." "Nossa, agora tudo é motivo para o exagero — a sociedade histriônica criada pelas redes sociais."
Ouço esse tipo de análise com frequência, baseada em experiência anedótica. E aí me pergunto: será que há alguma verdade nisso? Ou será que estamos diante de outro fenômeno que vem à baila — o conceito de bolhas sociais?
A Metáfora do Submarino
(Livremente inspirada no Mito da Caverna, mas com um observador mais dinâmico e ativo.)
Um grupo de pessoas vive dentro de um submarino. Essas pessoas nasceram ali, e vão descobrindo tudo que ele contém aos poucos. No início, tinham apenas um monte de ferro que oferecia alimento, segurança, calor e proteção — mas era um lugar escuro.
Até que descobriram a luz.
Ao acendê-la, um novo mundo surgiu. Como não tinham o conceito de tempo, o que aconteceu foi que um interruptor pareceu criar cadeiras, mesas, camas, teto, chão e milhares de botões a serem explorados.
O mini mundo mudou? Depende.
A realidade como a conhecemos foi construída após o interruptor ser acionado. A realidade não é apenas a materialidade — ela se constitui da percepção da realidade. Antes da percepção chegar, o que tínhamos era, para nós, a inexistência.
Tudo mudou, novos botões foram descobertos, novas alavancas dominadas por tentativa e erro — até que encontraram um monitor que mostrava o mundo lá fora, com vidas diferentes num meio onde todas as criaturas voavam.
Paulatinamente, o povo do submarino foi explorando o mundo em que estava inserido, e o mundo seguia crescendo, se ampliando e mudando "a olhos vistos". Essa percepção gerou duas conclusões possíveis:
- Estamos desvendando um mundo novo e aprendendo.
- Esses botões criam um mundo novo — novas criaturas, novas formas de vida, novos ambientes.
Essa população seguiu se desenvolvendo, se deleitando a cada novo botão que trazia mais e mais coisas infinitas a serem absorvidas pelos sentidos.
Muitos Submarinos
Agora imagine que não existe só um submarino — existem milhares deles na imensidão do mar, cada um com pequenas populações, todos "descobrindo" o mundo à sua própria forma. Cada grupo constrói um conjunto de verdades com base no que toca, no momento que toca, na forma que toca, e no que toca.
Se pegarmos uma pessoa de cada submarino e aplicarmos um questionário sobre como o mundo se apresenta, ouviremos as mais variadas respostas: os mais variados mitos, os mais variados contos — todos dizendo respeito à criação de um novo mundo, a partir do fato de que cada grupo tocou na realidade com seus sentidos.
Mas de fato, algo foi criado pela percepção?
Isso é a correlação. Há uma correlação óbvia entre o objeto e sua percepção, mas não há causalidade entre a existência material do objeto e sua percepção. O que você não sabe que existe segue existindo — mas simplesmente não é percebido.
O que fazer com a existência narrada pelos habitantes de outros submarinos que estão simplesmente em outro lugar, ou virados pra outro lugar, ou mais profundos ou mais rasos no oceano infinito ? Tambem são a realidade ? e todos eles foram criando percepções e onde ficaria a realidade nisso tudo ?
Como Ampliar a Percepção?
Como perceber as intrincadas relações que estão aquém da nossa percepção, mas formam o mundo em que vivemos?
Criamos algo chamado ciência — com metodologias de medição que usam modelos de simulação, evidências e inferências, ampliando nossa capacidade de percepção para além do mundo anedótico.
Todas as afirmações do início podem ser fato — ou podem ser apenas uma percepção nova, uma mudança na percepção, ou ainda um desvio do "monitor" do nosso submarino. E só podemos ver o que ele nos mostra. Não temos visão abrangente e autônoma: precisamos de monitores diante dos olhos.
Sempre foi assim. Se desconsiderarmos a ciência e olharmos para a história dos nossos monitores:
- A fala — as coisas eram sabidas pelo contato e pela conversa de um com outro.
- A escrita — BUM. As coisas mudaram. Sentimos a vertigem de tocar em um mundo novo que vem da "fala de diversos". A natureza efêmera e instantânea da fala ganhava um teor mais duradouro: o que foi dito seguia sendo, bastando ser relido, isto cria, alem de atemporalidade, uma coerência pois a escrita não tem micro mudanças ao ser transmitido, é tudo concerto e físico. (Jornais, livros, revistas e, mais tarde, o rádio.)
- A imagem — e depois a imagem que se move. Além de ouvir e criar o mundo na mente, ele passa a nos chegar por imagens "reais". A imaginação perde protagonismo. O registro visual de eventos toma seu lugar. (A televisão.)
Com a TV, temos uma visão muito maior da realidade. Será?
A imprensa tem seu viés ideológico, seu viés de mercado, seus objetivos. A infinita realidade potencial precisa ser filtrada. O monitor segue sendo modificado por um grupo — criando submarinos imensos, porque a fonte dos dados é finita, o que ainda gera adesão de grupos muito grandes com o mesmo tipo de visão.
E então veio a ruptura.
A Ruptura: Internet, Blogs, Redes Sociais
Vamos ver como evoluímos:
1 → 1: Sabíamos do mundo pelo que observávamos e pelo que ouvíamos dos próximos. O conhecimento era quase individualizado — parte de um para um.
1 → N: Um grupo credenciado passou a olhar o mundo e contar a todos, escrevendo em livros e jornais. Um pequeno grupo informando um grupo maior, criando uma união por massa.
1 → N (ampliado): Esse grupo cresce e passa a olhar para mais coisas, disponibilizando para mais pessoas — mas mantém a mesma lógica de recorte da realidade decidido por poucos. No Brasil, por exemplo, em grande parte a população era informada por um canal estatal e mais 6 grandes grupos editoriais. Extrapolando, a população estava dividida em 5 a 7 grandes bolhas.
Tudo que um grupo não mostrava era inexistente perceptualmente — embora não fosse factualmente inexistente. E quando algo chegava, não significava que seria criado, mas que a luz bateria num ponto ainda não iluminado da realidade que percebemos.
N → N: Aí vem o paradigma da rede social, onde os credenciados para transmitir informação se tornam todos.
Criamos um exército de submarinos, onde cada um percebe as coisas de uma das infinitas formas de perceber. Isso nos fragmenta. Isso nos afasta. Isso nos individualiza. Isso nos torna solitários se comparado ao momento anterior. Retira um poder imenso dos grupos de mídia e o joga no chão — onde cada vez mais você acredita no seu tio, na sua tia, no seu amigo, e não mais no repórter distante com português preciso e pós-graduação. Você busca seu igual para te informar, para se sentir mais próximo.
O Fim da História?
Não.
Uma vez que nos tornamos indivíduos porosos, nos tornamos frágeis e manipuláveis. Toda a internet pertence a não mais que uma dúzia de corporações — e considerando a discrepância de público, podemos dizer que umas 5 comandam o espetáculo. Dando a falsa aparência de independência, mas coordenando o que vai ser percebido por qual submarino.
Agora não estamos mais no mar. Estamos dentro de tanques imensos. Andamos dentro do tanque e o monitor de todos, na verdade, é um monitor finito do tanque. Achamos que somos um grupo isolado — mas somos uma grande massa de manobra do poder dos donos da informação.
Conclusão
Com tudo isso, dizer que as coisas estão mudando por causa das redes sociais pode ser verdade em alguns níveis — mas essa hipótese convive com outra: a de que a rede pode simplesmente ter nos mostrado uma área escura de nós mesmos, e do pequeno subgrupo do nosso submarino pessoal.
O que de fato cria realidade pode ser a nossa percepção dela — mas devemos ter em mente que uma visão cria um mini-mundo finito, e a realidade é composta de partes de percepções de toda a vida que existe na Terra.
E fora dela? Aí é outra história.


