O Foco na Personalidade e a Perda da Coletividade

Pensar uma população é pensar a abstração que sobrepõe pensamentos, que retira o que é comum na massa e o estratifica, para, assim, se obter a abstração daquele povo. Com base nisso, e à luz de grandes estudos com métodos muito bem delimitados e corretos, podemos afirmar algumas verdades perenes sobre um povo (ou um grupo). Contudo, mesmo com estudos, sabemos que a maior parte do que se abstrai de um pensamento de massa perde-se contextualmente no momento em que "batemos a foto". Ou seja, precisamos sempre das meta analises para certificar, corrigir ou ate negar o que era um elemento comum ou ate petreo de um grupo. Ha necessidade de um saneamento constante sobre o que eh o pensamento de um grupo em cada momento.
Este tipo de verificação sempre encantou e permeou o pensamento da coletividade (esta afirmação é, em si, uma constatação de quanto mais ouvimos sobre isso).
O homem...
A mulher...
O idoso...
A criança...
O fascista...
O comunista...
E você pode entrar cada vez mais em especificidades e reduzir os grupos para poder ter uma fala com a autoridade de quem entende o grupo. Lembre-se que quanto maior o grupo, mais o argumento parecerá correto pela estatística; mas quanto menor o grupo, mais ele parecerá verdadeiro quando exploramos dois vieses cerebrais muito bem demarcados: o viés de confirmação e a experiência anedótica, com pitadas da falácia da abstração apressada.
Se eu digo que "todo liberal é um fascista", basta citar o caso de um fascista que eu demonstre ter alguma característica liberal para que um grupo, dotado de seus próprios vieses, acompanhe tal conceituação. Isso acontece seja porque essas pessoas previamente têm essa "certeza", ou porque inferem um grupo com base em uma única experiência pessoal.
Isso nos leva a conversar com e a respeito de uma entidade inexistente, mas que confere uma potência incrível à fala, por demonstração de autoridade de quem está falando (o que chamo de "adoçando o poço", em antagonismo à falácia do envenenamento do poço). Isso cria discursos ao mesmo tempo potentes e extremamente superficiais, mas que servem à eterna carência de grupo, à carência de razão e ao reforço de suas certezas internas.
A Carência de Razão
À medida que o conhecimento humano avança, mais e mais nos aprofundamos em elementos que tínhamos como bases de um conhecimento pretérito. Estes elementos hoje deixam de ser a base e se tornam apenas mais um componente na construção de bases mais abstratas e simples (em antagonismo a bases com mais características, e não falando aqui de facilidade de conhecimento ou delimitação de tais bases). Esse avanço constante do pensamento humano gera uma complexidade cada vez maior em elementos que antes faziam parte do senso comum.
Usemos um exemplo de grande alcance: o vácuo do espaço.
Inicialmente, a percepção do vazio cósmico tornou-se fácil, diferenciando-o do preenchimento natural entre dois objetos. Saber que o cosmos é ausente de tudo nos deu o conhecimento (que um dia foi real) de que no vácuo cósmico há ausência de gravidade. O vácuo e a ausência de gravidade foram constituídos como pilares para construir o conhecimento das pessoas sobre o cosmos.
O tempo passa, e, com o conhecimento mais detalhado da ciência, o vácuo deixa de ser um "vácuo absoluto"; percebe-se uma rarefação de matéria, mas, dentro disso, sua presença. O interior atômico passa a ser o novo vácuo (que imediatamente também foi movido para uma abstração maior). E quanto à ausência de gravidade, baseada na razão direta das massas e inversa das distâncias, ela se atenua até anular-se? Parece que não. A ausência vira microgravidade, ainda presente, porém muito sutil.
Isso cria novos pilares de análise, mas o senso comum imediatamente, ao ouvir os termos "vácuo" e "cosmos", preenche o restante como "vazio do espaço perceptível" e "falta de gravidade".
Quando surge uma pessoa que se debruça sobre essa questão e explica os novos conceitos e como as primeiras observações têm que ser estratificadas, isso causa uma nova ignorância sobre algo que se pensava saber. Isso ocorre simultaneamente em várias áreas: astronomia, política, composição social e profissional. Este cenário nos joga em um abismo de ignorância que nos amedronta. Nossa reação pode ser o uso da experiência anedótica e do viés de confirmação para nos mantermos no "lugar quentinho" de conhecer o mundo no nível de detalhe que escolhemos.
Lidar com esse luto constante do conhecimento é pesado, fere nosso ego. Buscamos uma reação, que via de regra passa pelas fases de; raiva, negação, barganha, depressão e aceitação. Nessas fases, construímos paulatinamente nossa estratégia para não mais habitar esse lugar doloroso.
O modo como fazemos isso tem muito a ver com nossa composição cognitiva, personalidade, exposição anterior, vida, infância e meio. Juntando tudo isso, podemos simplesmente negar o novo, pois o novo sempre nos joga em uma nova ignorância, e isso nos leva a um vazio de "utilidade" social.
Serventia do individuo no jogo do Capitalismo
A mola capitalista pune com o ostracismo o "inútil", e precisamos fazer qualquer coisa para não sermos inúteis e fazer parte da divisão das bênçãos sociais. Seja fazendo ou mentindo que fazemos, se isso nos gerar o ganho, está valendo.
Pois o ostracismo social, nos leva a um escanteamento do capital, e sem ele perdemos, saúde, moradia, segurança e saúde mental, e isso pode ser bem pior que a morte real. Portanto se livrar desta maldição moderna pode ser um jogo de vale tudo.
Uma proposta... (Utópica ?)
Acho importante mais e mais canais de perguntas do que de respostas, canais de contato com a nossa ignorância, ao invés de canais que desfilem nossa vaidade e pretenso conhecimento, com a quantidade cada vez maior de conhecimento especifico, o comum eh mais a ignorância do que o conhecimento sobre tudo, mas não vejo esse reflexo aparecer de forma honesta no oceano de canais que fazem mais sucesso.
Talvez não estejamos usando nossa capacidade de nos reunir em torno de características comuns. Como todos têm uma aparente certeza enganosa, achamos que "somente nós somos ignorantes e descartáveis". Se mais e mais pessoas, com ou sem notoriedade, confessarem seus medos e ignorâncias, poderemos nos sentir parte de uma legião de pessoas que não sabem. Isso pode ser o novo "lugar quentinho", que moverá mais a massa e economizará energia vital para, de fato, aprender, ao invés de gastar tudo mostrando que se sabe algo de que não se faz a menor ideia.
Isso vale para tudo, somos o único individuo, ignorante, pobre, infeliz e feio, o que vemos como o reflexo de um novo ideal construído, eh a comprovação de nossa derrota, portanto temos alguns caminhos, um deles olhar o mundo real com mais detalhamento, aprender, nos conhecer melhor, etc. Ou ainda questionarmos o mundo a nossa volta com uma disposição sincera e profunda.


