Desabafo de um comunista carioca

Estamos há dois dias sem que o governador do estado assassine mais de 120 pessoas em um país que não deveria ter pena de morte — mas tem, para pretos e pobres. Enquanto isso, os verdadeiros donos do dinheiro do tráfico e do crime organizado estão longe, rindo de tudo e recrutando mais “soldados”. Soldados que, se parados pela polícia em uma abordagem de rotina, abrirão fogo, porque sabem: para pretos e pobres, não há prisão, só o cano de um revólver.
E aí? Queremos que o povo da favela tenha consciência de classe e lute pela revolução, mas eles estão ocupados sendo mortos e tentando sobreviver.
Uma crítica aos companheiros que enxergam os desfavorecidos que votam em milicianos como “falta de política”: pensem que pode ser falta das garantias que te permitiram ter escolha. Para quem vive em comunidades excluídas, a única escolha é tentar viver e torcer para que amanhã seja menos pior. A escolha é olhar para a Lei Seca e fugir das blitz, porque sabem que podem acabar crivados de balas, em valas comuns, com suas mães chorando na rua.
Não é falta de política. É falta de direitos.
É uma vergonha que direitos mínimos — como julgamento justo, investigação, presunção de inocência, ampla defesa — não existam para quem está do lado de fora do Estado. Lá, vigora a lei de Talião. A ditadura nunca chegou a esses lugares… porque nunca terminou para eles. Não adianta fazer discurso sobre o terror de 1964 em livros: o que vivem nas periferias é muito pior.
- Pense em ter uma filha adolescente e, todo dia, temer que ela chame a atenção dos donos do morro.
- Pense em ter um filho adolescente e implorar para que ele não faça amizade na boca.
- Pense em ter um filho preto e rezar, diariamente, para que o Estado não o mate, maltrate ou prenda.
- Pense em ter uma família e uma casa que não é sua — se a boca decidir, você sai.
- Pense em viver sob toque de recolher.
- Pense em não poder sair de uma festa após as 22h e, se o fizer, ter que dormir na rua.
- Pense que, se dormir na rua, pode ser alvejado por ricos entediados, por criminosos ou pelo próprio Estado — só porque você não tem a cor ou a classe social “certa”.
Antes de torcer o nariz para a “falta de politização”, pense na falta de vida. Pense na ausência de um Estado Democrático de Direito. Pense que o Estado só entra na vida dessas pessoas através do caveirão, de fardas azuis ou pretas, de violência, tortura, estupros e execuções.
Por que diabos eles seriam a favor da política, da justiça ou do Estado?
São pessoas que só existem para a extrema direita nas eleições. Aí, o Estado lembra deles, distribui esmolas, compra votos e vende a ilusão de que um dia poderão apenas viver.
Comemoremos dois dias sem assassinatos do Estado. Não temos pena de morte no Brasil — então, invasões e execuções são assassinatos. Culpado ou inocente, nada na nossa lei permite matar alguém deliberadamente.
Onde estão os “defensores da vida” que lutam por células-tronco, mas comemoram a morte de pessoas?
Vamos refletir, camaradas. Tudo está muito errado. Precisamos, primeiro, garantir a vida para depois pensar em revolução. Caso contrário, veremos as milícias assumirem o poder pela total desmobilização social.
Hoje, não precisamos de uma revolução para retirar o Estado. Precisamos, antes, levar o Estado a todo o país — para que todos possam julgá-lo. E garanto: do jeito que as coisas são hoje, só de ter direitos básicos, ele parecerá um paraíso por décadas — até que a inquietação com o capitalismo finalmente chegue.
Li certa vez um texto (que não me recordo a autoria) de um movimento feminista nos EUA, este movimento em dado instantes foi criticar as mulheres pretas por não alinharem nas fileiras e "causar" um racha étnico, afinal de contas pretas ou brancas são todas mulheres, eis que isso foi perguntado em tom de cobrança a uma mulher preta, e a resposta é pra todos refletirem antes de criticar movimentos sociais de minorias hostilizadas...
- Não posso alinhar com voces para direitos das mulheres, primeiro estou lutando para ser reconhecida como gente !


