Com eu "deveria" ter lido Foucault ! - Vigiar e Punir

Ao pegar o livro, e ver suas quase 300 paginas, me preparei para uma escrita descritiva e linear, ao longo de toda sua descrição histórica, com uma base de pesquisa que pareceram bem detalhada, ia lendo e me moldando ao ler um "romance", uma obra descritiva, intensa e bem pormenorizada, a medida que as descrições vão avançando fui me perdendo no elemento tese proposta, num mar de materialidades, organizadas historicamente, de forma que um olhar fosse guiado para elementos que compõe sua forma de ver a historia, os elementos por ele escolhidos dão conta de seus ensaios e pensamentos a cerca das instituições de "correção" de "vícios". Mesmo neste ponto alguns elementos de antítese de sua forma de pensar vão aparecendo, tornado uma dialética interessante, mas apenas com sentido dentro da estrita observação histórica dos fatos ocorridos.
A medida que ia avançando fui tomado de todas as dores das pessoas que questionei sobre o mesmo livro, e não por acaso desistências do livro antes mesmo da metade dele, ou pouco depois.
Com base nisso, usei apenas minha vontade e segui lendo sem buscar a recompensa tão alardeada da critica ao sistema punitivista ora imposto no mundo.
Isso se perpetua até os dois últimos 2 capítulos. onde ele começa a, enfim, traçar sua tese sobre tudo que você acabara (?) de ler. Nesse momento sua tese é descortinada e você tem uma avalanche de lacunas que foram lhe entregues ao longo do livro, mas pela distancia narrativa, lhe faltam em memoria.
Ai comecei a tentar procurar os elementos que eram agora somente citados na conclusão e isso tornou o final ainda mais árduo, embora mais recompensador que fora toda a leitura pretérita da obra.
Portanto ao final (terminei de ler hoje), eu pude ter a luz de com eu deveria ter feito desde o inicio, e talvez isso possa servir para pessoas que considerem ler Foucault, meu primeiro conselho : Não o façam...
Explico; pelo que li da obra toda, este livro não deveria ser lido, ele deveria ser estudado ao invés de lido, um "jeito" de ler diferente de uma obra linear se faz necessário e isso tem 2 implicas :
- A materialidade que ele se baseia para chegar em sua tese ao final do livro é tão detalhada que cria um afastamento de quem não é francês, europeu, ou ainda teve orientação em sua leitura, fazendo com que o livro seja 90% um posicionamento histórico de uma Europa dos séculos XV, XVI, XVII, XVIII e XIX, e nomes de pessoas que nos fogem ao vocabulário comum o que acaba por dificultar ainda mais.
- As conclusões dele são interessantes e nos trazem de volta ao livro, pois o elemento central da critica é calcada numa "Sociedade de classes" e em sua luta temos uma ferramenta de controle bem eficaz que são as instituições de "disciplina e punição"
Portanto se minha experiência com esse livro puder ajudar eu dou um conselho :
Comece pelos 2 últimos capítulos, a estranheza que vai ter ao se formarem lacunas dos nomes, fatos históricos e autores não será diferente ao final da leitura pela distancia que citei acima e você terá que reler alguns elementos para conseguir se situar, a diferença que fará isso de forma única e não linear.
Após ler os dois últimos capítulos, crie um mapa mental dos elementos que julgar interessantes, e ai sim vá lendo os capítulos e ao se formar a base de compreensão de tais elementos, pare e releia cada elemento ao final dos blocos históricos.
Anote cada nome com seus implicas históricos
Anote termos com delinquência, crime, e os termos jurídicos que ele espalha pelo livro e na leitura verifique o que significam para a compreensão e vá montando seu glossário.
Ao final você poderá perceber que a potencia da mensagem final eh universal mas os elementos que dão materialidade a ela, são por demais distantes de outros leitores que não contemporâneos no tempo ou na geografia do autor. e dê andamento a uma pesquisa no seu lugar para entender como essa critica se encaixa ( e ela se encaixa ) no seu lugar, no seu convívio e no seu sistema jurídico, seja oficial ou "extra oficial".
- Critica -
O "detalhismo" dele (Foucault) e não sua escrita prolixa oque achei a principio, em busca da materialidade das teses propostas por ele, são tão profundas, que se tornaram um compendio sobre a França ou Europa
Os elementos de contato que universalizam a fala dele, são pelas coincidências da estrutura de classes que eh a luta do mundo todo e não pela tese em si que eh apoiada no sistema judiciário e histórico francês.
Muito interessante essa parte mas cria uma lacuna que cada pais deve fazer sua pesquisa para criar novos elementos materiais de fundamentação para os seus próprios vigiar e punir.
Achei um livro muito bom, mas de difícil leitura, senti falta de uma vivencia acadêmica para poder preencher as lacunas sozinho, mas nesta falta acabei tendo que buscar tudo dentro da própria obra !
Resumindo, eu vi o livro como tendo duas partes :
Uma pesquisa histórica sobre a "evolução" de um elementos de controle de comportamento social, e uma tese sobre como isso não funciona e nos joga apenas dentro do caldeirão de controle, e crime. E ao final acabei gostando dos dois !


