Adicionar obstáculos, retirar obstáculos, eis a receita da pseudo evolução.

O que os Estados Unidos estão fazendo com Trump é muito semelhante ao que o Brasil fez com Bolsonaro. Essas figuras abjetas, dispostas a descer até a latrina da história, cumprem um papel extremamente útil para o sistema: realizam o que nem os criminosos mais ousados aceitariam fazer em plena luz do dia.

Acreditar que o sistema americano é “contra” Trump, ou que Bolsonaro estava sozinho, é a mais pura ingenuidade. O sistema não é vítima dessas figuras — ele as cria, as usa e, quando necessário, as descarta. Enquanto elas estão no poder, destroem o povo com uma mão e, com a outra, distribuem ópio: discursos inflamados, gestos simbólicos, polarização constante. O povo fica entretido na briga, enquanto a boiada passa.

E o que acontece quando esses personagens saem de cena?

Surge uma sensação coletiva de alívio, de “melhora”. É a clássica tática do elefante na sala: quando o povo começa a se articular e a perceber o quanto está sendo prejudicado, o sistema cria um inferno controlado, concentra todo o ódio e a responsabilidade em uma única cabeça, autoriza o caos com total impunidade e, depois, expulsa o “monstro” que ele mesmo criou.

Nos EUA, a popularidade de Trump despencou abaixo dos 40%.
No Brasil, foram 300 mil mortes evitáveis.

Enquanto eles incendiavam o país e geravam caos mundial ou local, ninguém olhava para o que realmente estava acontecendo. Essa é a verdadeira cortina de fumaça.

Depois, o sistema se declara “arrependido”, expurga o mal que ele mesmo gerou e posa de justo. Mas basta comparar como as pessoas viviam antes e como vivem depois para ver a verdade nua e crua: a burguesia saiu muito mais forte, mais protegida, mais inatingível e isolada. O povo, ao contrário, ficou mais pobre, mais vulnerável e com menos direitos.

Isso não é acidente.
Isso é a crise do capitalismo funcionando exatamente como deve funcionar.

O sistema não sobrevive apenas pela contradição clássica de querer crescer infinitamente num planeta finito. Ele sobrevive, sobretudo, criando falsos ciclos de “evolução”: destrói, polariza, culpa um bode expiatório, expulsa-o com grande espetáculo e, no final, consolida ainda mais poder e riqueza nas mãos de sempre. O povo aplaude a “vitória” contra o monstro, enquanto o monstro verdadeiro — o próprio sistema — fica mais robusto do que nunca.

A cortina de fumaça não serve para enganar a Justiça.
Serve para enganar o povo na hora da urna e, principalmente, para que ele nunca perceba quem realmente está no comando.

Um pouco de digressão (não muita)

Se você ainda acredita que o nazismo foi uma obra isolada de um “demônio” chamado Hitler, ou que o fascismo italiano foi apenas uma aberração criada por Mussolini, é hora de olhar com mais atenção para a história real.

Os regimes totalitários do século XX não nasceram do nada, nem foram sustentados apenas por fanáticos de uniforme. Eles foram alimentados, financiados, vestidos, equipados e propagandizados por estruturas de poder muito maiores: indústrias, bancos, empresas de tecnologia, fundações e elites econômicas que viram neles oportunidade de lucro, estabilidade ou avanço ideológico.

Pergunte, por exemplo, quem produziu os uniformes nazistas. A resposta é Hugo Boss. Hugo Ferdinand Boss, membro do Partido Nazista desde 1931 (número de filiação 508.889), transformou sua pequena fábrica em fornecedora oficial do regime. Sua empresa produziu camisas pardas da SA, uniformes pretos da SS, fardas da Juventude Hitlerista e da Wehrmacht. Não foi ele quem desenhou o corte icônico das SS (esse crédito vai para Karl Diebitsch e Walter Heck), mas foi sua fábrica que os costurou em massa — inclusive usando trabalho forçado de prisioneiros poloneses e franceses. Em 2011, a empresa Hugo Boss emitiu um pedido público de desculpas pelo uso de mão de obra escrava durante a guerra. Hoje, a marca é sinônimo de luxo, elegância e perfume caro. O nome “Boss” continua estampado em ternos de milhares de euros, enquanto o nome “Hitler” é o único que carrega o peso absoluto da execração pública.

E não parou por aí.

  • IG Farben, o maior conglomerado químico da Europa, produziu o Zyklon B usado nas câmaras de gás. Teve uma fábrica própria dentro do complexo de Auschwitz (Monowitz/Buna) que funcionava com trabalho escravo. Depois da guerra, a empresa foi desmembrada — dela nasceram a Bayer, a BASF e a Hoechst (hoje parte da Sanofi).
  • Krupp e Siemens exploraram dezenas de milhares de trabalhadores escravos.
  • IBM (através de sua subsidiária alemã Dehomag) forneceu a tecnologia de cartões perfurados que permitiu o censo e a identificação sistemática dos judeus.
  • Ford (fábrica alemã) produziu veículos militares para a Wehrmacht; Henry Ford, aliás, era abertamente antissemita e publicou o livro O Judeu Internacional.
  • Standard Oil (hoje ExxonMobil) e outras empresas americanas mantiveram acordos comerciais com o regime até o início da guerra.

A eugenia — a ideia pseudocientífica de “melhorar a raça” que serviu de base ideológica para o Holocausto — não foi inventada na Alemanha. Ela foi amplamente financiada e promovida nos Estados Unidos e na Inglaterra por fundações como Carnegie Institution, Rockefeller Foundation e famílias como os Harriman. Leis de esterilização compulsória e pesquisas sobre “raças inferiores” foram exportadas e depois adotadas com entusiasmo pelo regime nazista.

Os exércitos não marchavam apenas com ideias. Marchavam com uniformes bem cortados, botas lustrosas, tanques, aviões, remédios, combustível e propaganda bem produzida. Tudo isso exigia dinheiro, tecnologia, matéria-prima e logística. E quem comandava esse circo? Não eram apenas os ditadores de palco. Eram as mesmas estruturas de poder econômico que, antes, durante e depois da guerra, continuaram existindo — muitas vezes com novos nomes, novas embalagens e novos discursos.

A propaganda, a estética, o cinema, o rádio, a moda, a arte oficial — tudo foi orquestrado com a participação ativa de indústrias culturais e de comunicação. A beleza do mal, o espetáculo do poder, a sedução do ódio organizado: nada disso surge do nada. Surge de quem tem os meios de produção.

O que mais assusta não é o monstro isolado. É perceber como o monstro foi fabricado, vestido, armado e aplaudido por gente “respeitável” — e como, décadas depois, muitas das mesmas marcas e corporações que lucraram com a barbárie continuam entre as mais admiradas do mundo.

Hitler virou o bode expiatório perfeito. Seu nome foi transformado em sinônimo absoluto do mal, enquanto os nomes das empresas, dos bancos e das fundações que o sustentaram foram cuidadosamente preservados, rebranded e integrados ao mundo “civilizado” de hoje.

A verdadeira lição da história não é apenas “nunca mais Hitler”. É entender como o mal se organiza, se financia e se legitima — e como ele costuma usar o mesmo figurino, só que com outra etiqueta.

Porque, como sempre, o circo continua. E o dono do circo raramente aparece no picadeiro.

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