Há um ingrediente na esquerda radical revolucionária que carece de lapidação.

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Concordo com a identificação do problema: as falhas em todos os sistemas vigentes são causadas pelo capitalismo, e não por uma “falácia naturalista” de que a natureza humana seria assim. Concordo também sobre a exploração da força de trabalho, a concentração de riqueza, a altíssima desigualdade e o abandono do proletariado. A violência, causada pela total desesperança da população, se resolvida a questão material, seria relegada a casos patológicos, muito menores do que temos hoje. Concordo com tudo isso. Porém…

A humanidade não vai partir do modo de produção capitalista para o socialista num estalar de dedos. Precisamos lidar com a materialidade. Nela, várias reformas podem ser a diferença entre viver e morrer para a esmagadora maioria da população mundial, e essas reformas devem ser apoiadas por revolucionários.

Acredito que o papel do revolucionário é de formiga: criando conhecimento, adaptando a teoria ao contexto atual e atualizando as visões socialistas, enquanto convence lentamente o proletariado. Contudo, quando o comunista compara o que está sendo feito pela esquerda, centro-esquerda ou até por uma direita democrática com sua visão utópica do socialismo, ele erra. Isso não é análise material, é projeção. Cada experiência socialista será adaptada ao contexto, à cultura e à massa daquele lugar; duas experiências tendem a ser muito diferentes.

O ideal é chegar lá, concordo. Mas, até chegarmos ao ideal, temos o mundo atual, com questões urgentes como sindicatos, greves, novos direitos e o equilíbrio entre burguesia e proletariado. Uma social-democracia não é uma inimiga se permite que o povo pare de se ocupar apenas com a própria sobrevivência e passe a poder pensar. Hoje, a luta para estar vivo consome a maior parte da energia da população.

A tese do “quanto pior, melhor” é, de fato, uma falácia usada pelos liberais contra os comunistas, mas ela carrega um quê de verdade — e as melhores mentiras são as que se ancoram na verdade.

Ver opções de luta em alguns liberais, sociais-democratas e outras esquerdas não pode ser feito apenas do ponto de vista conceitual. Às vezes, temos que pôr o pragmatismo inflexível de lado, pois há vidas a serem salvas hoje. É preciso nos alinhar com pessoas que estão tentando jogar o jogo que está na mesa agora.

Por melhor enxadrista que você se considere, se na mesa há um jogo de cartas, você tem que se adaptar ao jogo para vencer nele e, quem sabe um dia, jogar o seu tão sonhado xadrez. Tentar usar as regras do xadrez para um jogo de cartas será sempre causa de tensionamento desnecessário, como se já não houvesse tensão suficiente na ideia de revolução. Adaptar-se pode criar o ponto de contato excelente para que a teoria da revolução possa ser ouvida, repetida e melhorada. Quanto mais for adotada por mentes diferentes, maior será a nossa força.

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